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margem do riacho dos Batataes, affluente á esquerda
do rio Sapucahy-mirim, e á beira da estrada real de
Goyaz, erguia-se, naquelles primeiros dias de 1801,
pouco mais de meia duzia de casas de aspecto
humilde, ao redor das quaes outras foram
apparecendo. Para esse pequeno nucleo convergia,
dada a sua situação, junto á única via de
communicação entre as sédes da capitania e do
Brasil e o sertão immenso de Goyaz, todo o
commercio das quinze posses enumeradas,
vastissimas todas, avançando leguas e leguas. Essa
circumstancia concorreu, certamente, para que se
desenvolvesse o pequenino povoado, que em 1810 já
possuia um cemiterio de reduzidas proporções.
A 25 de fevereiro de 1815, dirigindo a capitania de
São Paulo, na qualidade de capitão-general, o
Conde de Palma, empossado a 8 de dezembro de 1814, e
attendendo ao que, por intermedio de seu bispo,
supplicavam aquelles honrados sertanejos um régio
alvará do pacatissimo Senhor D. João VI,
cantochanista e glutão, a quem chamava, aquella
gente avessa á numeração romana o dom João vi,
elevava o arraial dos Batataes á categoria de
freguezia, sob a denominação de “Senhor
Bom Jesus da Cana Verde”
O progresso sempre crescente daquella zona
deixava á mostra a insufficiencia do local
escolhido para a respectiva séde, não obstante sua
boa situação á margem da estrada real. A idéa
tomou incremento.
Após vários anos, quasi toda a população dos
arredores havia adherido ao projeto. Digo quasi
toda, porque dois velhos posseiros, Manoel Bernardes
do Nascimento, dos Batataes, e Antonio
José Dias, da Panciencia, eram, de
maneira irreductivel, contrarios a transferencia
tal, que feria indubitavelmente seus interesses.
Germano Alves Moreira e sua mulher, dona Anna Luiza,
posseiros de São Pedro e Sant’Anna,
doaram o terreno necessario para a constituição do
patrimonio, á margem direita do ribeirão das
Araras, e a provisão de 25 de setembro de 1821,
tornava realidade a mudança, tomando a freguezia a
denominação quilometrica de “Senhor Bom
Jesus da Cana Verde dos Batataes”,
desprezados os protestos de Bernardes e Dias.
E á medida que o velho arraial ia cahindo num
triste abandono, até extinguir-se por completo, a
nova povoação crescia vertiginosamente.
Dezoito annos mais tarde, a 14 de março de 1839, o
doutor Venancio José Lisboa, nono presidente da
Provincia, promulgou a lei nº 128, decretada pela
Assembléa Provincial.
“Art. 1º - Haverá nesta Provincia mais
uma comarca, composta de dois termos, o de Mogy
Mirim e o de Villa Franca do Imperador: - a
freguezia dos Batataes, pertencente a este termo,
fica elevada á categoria de villa e sendo a cabeça
do dito termo; a residencia, porem, do juiz de
direito será na Villa Franca do Imperador, com
vencimento de um conto e quatrocentos mil reis de
ordenado.
Creado o
municipio, a 29 de agosto do mesmo anno,
installava-se o governo municipal, que deste modo
ficou constituido:
Antônio
Ferreira da Rosa
Presidente...
Finalmente
a lei nº 20, de 8 de abril de 1875, elevou Batataes
á categoria de cidade e comarca.
No anno de 1872 Batataes era ainda um villarejo
humilde de sertão. Os seus prédios não chegariam,
talvez a duzentos. A povoação possuia tres praças,
invadidas todas tres pelo mato, que vicejava
inpunemente: - o largo da Matriz (hoje praça Conego
Joaquim Alves), o largo do Rosario (agora praça
Washington Luiz) e o largo da Cadeia (actualmente
praça 15 de Novembro). As rua eram treze, - numero
aziago – e as treze concordando inteiramente com
os largos: - a do Chafariz, (Coronel Joaquim
Rosa), a do Commercio (Celso Garcia), a de Cima
(Coronel Pereira) etc...
Em outubro de 1886 o imperador D. Pedro II foi a
Batataes afim de inaugurar o prolongamento da
Estrada Mogyana.
Por volta de 1870 a freguezia contava com 13
eleitores e quinze supplentes, sendo Boaventura
Ferreira da Rosa, dono da fazenda Prata, um dos
eleitores supplente.
Na rua do Chafariz, assim denominada por causa de
uma bica que havia, para servidão publica, estava
localizado o sobrado da Familia Ferreira da Rosa.
A população do municipio, de tão vasto
territorio, era de 8.881 habitantes, nesse total
incluidos 2.506 escravos matriculados, mais de 28% ,
bella proporção.
Em 1885 era o capitão Antonio Ferreira da Rosa
um dos tres supplentes do juiz municipal e de orphãos.
Advogava nos auditorios da comarca entre outros o Dr.
José Feliciano Ferreira da Rosa.
Devido a um impedimento legal, os vereadores foram
despronunciados e foi então chamada a administrar o
municipio, durante o processo, a Camara transacta,
que tinha entre seus membros Boaventura Ferreira
da Rosa.
Durante a Semana Santa, na terça feira,
sahia a procissão do Encontro, ás 17 horas da
igreja do Rosario, hoje desapparecida, tendo cedido
terreno ao actual Paço Municipal. A procissão
parava em vários pontos “passos” e o quinto
passo era na casa de Francisco Prudente Corrêa
(Chico Prudente).
Em 1892 é
narrado uma história sobre religião e mencionado
que um caipira deixára o “cavallicoque” peado
junto ao portão da casa do coronel Martinho
Ferreira da Rosa.
Haviam tres festas tradicionaes: – a do Divino, a
de São Sebastião e a do Padroeiro, Bom Jesus da
Cana Verde. Algumas vezes essas tres festas eram
celebradas na mesma época, uma após a outra, _
sexta, sabbado e domingo. O povo – homens,
mulheres e crianças – entoavam hymnos laudatorios
e havia um de predilecção do velho Manoel Rosa.
Em um relato sobre assombrações e crendices,
conta-se que um assombrado, sentiu uma sensação
extranha, uma coisa exquisita, e, quando deu accordo
de si, estava no
capão do Quintino, junto da chacara de Manoel
Rosa.
As familias visitavam-se amiudo. As visitas eram
commumente á tarde, ás 4 ou 5 horas, depois do
jantar, servido invariavelmente ás 3. Para uma
visita de certa cerimonia era mobilisada a familia
em peso: - marido, mulher, filhos, filhas, as
crioulinhas infalliveis. E a familia visitada ficava
na obrigação de retribuir a visita.
As familias reuniam-se amiudadas vezes, ora aqui,
ora alli, em interessantes entretenimentos, como
fossem os jogos de prendas, Entre os jogos,
destacavam-se: - o “Cahir no poço”, a
“Caixinha dos tres desejos”, “A Minha
bocca”, “O Lampeão da esquina” etc..
Nesses serões eram também muito communs as
adivinhações, “adivinhas”, diziam, quando não
charadas daquellas antigas. Contavam que o doutor José
Feliciano Ferreira da Rosa, habitué
dessas reuniões, era uma negação absoluta para
quebra-cabeças e não havia força humana que o
fizesse metter o dente na mais simples adivinhação.
Movimento Republicano: A propaganda
republicana chegou tardiamente em Batataes. Antes de
1882 falava-se na República como se falava na maçonaria:
com medo.
A princípio só
havia, em rigor, um republicano verdadeiro,
propagandista decidido e denodado, -João
Ferreira da Rosa, bacharel em pharmacia e
lavrador.- escandalisando os conterraneos com uma
vasta gravata vermelha, que, em tempos idos, era a
cor republicana. Era o mais enthusiasta, disposto
sempre a affrontar todas as iras monarchicas,
promovendo conferencias, fazendo abertamente
propaganda de seus ideaes e dando á sua pharmacia,
de sociedade com Thomaz Martins de Araujo,
estabelecida á rua 7 de setembro, a denominação
de “14 de Julho”.
A 29 de julho de 1888 os republicanos batataenses
constituiram um club. A assembléa foi realisada em
casa do prestante cidadão Joaquim Ferreira da
Rosa, na rua da Quitanda, sob a presidencia de Martinho
Ferreira da Rosa, secretariado pelo irmão João
Ferreira da Rosa. A essa memoravel sessão
compareceram , entre outros, Boaventura Ferreira
da Rosa, Joaquim Ferreira da Rosa Junior,
Joaquim Prudente Corrêa, Henrique
Monteiro da Silva. Acclamaram a seguir a
primeira directoria do club, recahindo a escolha dos
presentes em Martinho Ferreira da Rosa para
presidente; doutor Manoel Antonio Furtado para
vice-presidente; João Ferreira da Rosa 1º
secretário etc..
A 6 de janeiro de 1889 reuniu-se o club em segunda
assembléa, na residencia de Boaventura Ferreira
da Rosa, no largo da Matriz. Entre os 16
presentes estavam Martinho Ferreira da Rosa, Antonio
Ferreira da Rosa, Joaquim Ferreira da Rosa
Junior, Joaquim Ferreira da Rosa Neto.
A 17 de novembro de 1889 o Dr. Herculano de Freitas
foi a Batataes installar o governo republicano, e á
memoravel sessão que nesta data se verificou, no
salão das sessões da Camara Municipal. Cento e
vinte e nove pessoas, das mais gradas, subscreveram
a acta lavrada pelo secretário da camara, estando
presente, entre outros Martinho Ferreira da Rosa,
Boaventura Ferreira da Rosa, Joaquim
Ferreira da Rosa Junior.
O Dr. Herculano propoz a composição de um governo
provisorio local, em substituição da Camara
Municipal, que ficava, apezar da adhesão, apeada do
poder, governo esse constituido pelo doutor Manoel
Antonio Furtado, Martinho Ferreira da Rosa e
por um terceiro cujo nome não me acode. A abertura
e encerramento da sessão foram assignalados pelas
notas da Marselheza.
Diante disso, a Camara pintou-se de verde, vivou á
Republica e mudou o nome do largo da Cadeia para praça
15 de Novembro.
Que seria Batataes naquella época?
Um terço talvez do que é hoje.Os casarões
acaçapados, de largos beiraes, largas janellas e
portas largas de uma só folha. Apenas tres
sobrados, ou melhor dois, - o da familia Ferreira
da Rosa, na rua da Quitanda e o da familia
Arantes Marques no largo da Matriz, - pois o
terceiro, era, antes, um simples sotão. As vias
publicas limitavam-se a cinco largos e poucas ruas:
o centro, o coração da cidade era o largo da
Matriz, destacando-se ahi o velho sobrado da familia
Arantes e abaixo, a casa do capitão Andrade, já
então da familia Ferreira da Rosa e agora ocupada
por um hotel.
Seguia-se em importancia a rua da Quitanda,
outr’ora do Chafariz e agora Coronel Joaquim
Rosa.
Possuia Batataes, quando da proclamação da
Republica, 2 açougues, 4 alfaiatarias, 1 salão de
bilhar, 1 salão de barbeiro, 7 capitalistas, 3
advogados, 2 engenheiros, 4 medicos, 6 officinas de
carpintaria, 3 marceneiros, 2 bandas de musica, 13
engenhos de serra, 7 engenhos de cana, 1 entalhados,
11 casas de fazendas, armarinho e ferragens, 60
fazendas, das quais 20 de café, 1 fabrica de
cerveja, 3 ferrarias, 1 fogueteiro, 3 funilarias, 11
casas de generos da terra, 1 hotel, o do
“Commercio”, 9 casas de seccos e molhados, 6
machinas de beneficiar café, 4 olarias, 3 ourives,
2 padarias, 3 pharmacias, 2 pedreiros, 1 professora
de piano, 1 pintor, 3 sapatarias, 3 selalrias, 2
ferradores, 2 trançadores, 4 guarda-livros e 1
typographia.
No dia 25 de
janeiro de 1890 foi feita uma reunião para eleger o
directorio republicano de cinco membros, que
“dirigisse e cuida-se dos negócios e interesses
do municipio e do partido republicano.de
Batataes”. 268 cidadãos acudiram ao chamamento. O
povo – diz a acta, referindo-se a esses 268
votantes, acclamou presidente da reunião o juiz de
direito da comarca, doutor Simpliciano da Rocha
Pombo e completando a mesa, entre outros, Martinho
Ferreira da Rosa.
O doutor Pombo convidou, então o povo a votar em
cinco nomes, á sua livre escolha, como se a escolha
já não estivesse feita.
A
maioria dos votantes era lavrador, existindo porém,
médicos, advogados, comerciantes, sapateiros,
barbeiros, juizes, funcionário municipal,
professores enfim uma representação uniforme da
sociedade local.
Nota-se a ausencia inexplicavel de varios
proceres que haviam recebido com satisfação, a 17
de novembro de 1889, a nova ordem de coisas, a começar
pelo mais antigo e mais enthusiasta João Ferreira da Rosa, bem como
de outros membros da familia Ferreira da Rosa. Esses
não têm justificação, a não ser o despeito de não
haverem sido incluidos na escolha feita previamente
dos nomes a serem “escolhidos” pelos votantes de
25 de janeiro.
Concluida
a votação, teve o seguinte resultado, tendo sido
empossados os cinco mais votados.
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Martinho Ferreira da Rosa |
265 votos |
|
Lucio Eneas de Mello Fagundes |
244 votos |
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Dr. Manoel Antônio Furtado |
216
votos |
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João Ferreira da Rosa |
9 votos |
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Joaquim Ferreira da Rosa Junior |
7 votos |
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Joaquim Ferreira da Rosa |
4 votos |
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Antônio Ferreira da Rosa |
3 votos |
|
Boaventura Ferreira da Rosa |
2 votos |
|
Conego Joaquim Alves Ferreira |
1 voto |
|